Comunicações criptografadas, esposas e filhos no escuro e gastando apenas em dinheiro – os soldados ucranianos por trás de ataques descarados de drones de longo alcance na Rússia vivem suas vidas quase completamente nas sombras. Os ataques de retaliação a instalações militares russas e às refinarias de petróleo que realizam envergonham o Presidente Vladimir Putin, que há quatro anos pensava que poderia capturar Kiev numa questão de dias. O preço que pagam, porém, é o sigilo quase total. Militares do 7º Batalhão da brigada “Madyar’s Birds” operam drones de médio alcance a partir de uma sala de controle subterrânea em um local não revelado na Ucrânia, em 15 de maio de 2026, em meio à invasão russa da Ucrânia. —AFP/Arquivo Denys, cujo nome foi alterado, participa das greves desde 2025. Mas seus amigos e até mesmo seus pais não fazem ideia, graças às regras ultrarrígidas de sua unidade. "Não chame a atenção para si mesmo, não se gabe. Você nunca poderá falar sobre o que fez, mesmo depois da guerra", disse ele à AFP em uma rara entrevista concedida por um membro da equipe ultrassecreta. Ex-fuzileiro naval, ele serve no Centro Nº 1 das forças de drones da Ucrânia. A sua unidade realizou grandes ataques à Rússia, incluindo um ataque em Junho a uma refinaria de petróleo de Moscovo que libertou uma espessa fumaça negra sobre a capital russa, e a São Petersburgo, quando ali foi aberta uma conferência internacional histórica. Um militar do 7º Batalhão da brigada “Madyar’s Birds” opera um drone de médio alcance a partir de uma sala de controle subterrânea em um local não revelado na Ucrânia, em 15 de maio de 2026, em meio à invasão russa da Ucrânia. —AFP/Arquivo Kiev considera os ataques uma retribuição justa às barragens nocturnas de Moscovo nas suas próprias cidades e tem como alvo semanalmente depósitos de combustível e refinarias, tentando cortar as receitas energéticas de Moscovo. As apostas, disse Denys, exigem o sigilo. “Somos um alvo de alto valor e prioridade para o inimigo.” ‘Modo de voo’ Os nomes e idades dos integrantes da unidade são mantidos em sigilo. É impossível fotografá-los ou filmá-los, exceto com os rostos escondidos. Os jornalistas da AFP tiveram de seguir protocolos de segurança rigorosos para obter acesso raro a um dos locais de lançamento utilizados para os ataques de longo alcance no início deste ano. “Nós próprios compreendemos quão elevado pode ser o preço para os nossos entes queridos e para nós – é por isso que a principal decisão consciente que tomamos é permanecer o máximo possível nas sombras”, disse um soldado do Centro N.º 1 que atendia por Voron, a palavra ucraniana para corvo. A Rússia fará “todo o possível para caçar pelo menos um destes grupos de ataque profundo”, acrescentou. Ele já fez parte de uma unidade que fez o mesmo pelos ucranianos – tentando encontrar e atingir as equipes russas de drones de longo alcance. Antes da invasão, ele era pintor e treinador de artes marciais. Casado e com um filho, ele acha que a esposa “suspeita” do que ele faz —mas ela “não faz perguntas”. Até mesmo a associação pública remota com sua unidade é proibida. Nas redes sociais, Voron posta na página de sua antiga unidade militar e compartilha fotos com sua insígnia – tudo para sugerir que ele serve lá. “Todos os meus parentes e amigos pensam que ainda estou nas forças especiais”, disse ele à AFP. “Na vida cotidiana, vocês não nos reconheceriam”, disse à AFP um oficial da inteligência militar do GUR que deu o indicativo de chamada Wolf. “Mantemos a discrição… para nos passarmos por pessoas comuns”, acrescentou. Esta fotografia, tirada num local não revelado na Ucrânia, em 16 de maio de 2026, mostra um militar ucraniano da Direção Principal de Inteligência do Ministério da Defesa da Ucrânia, com o indicativo “Wolf”, trabalhando num drone Bober ou ‘Beaver’, envolvido em ataques profundos em território russo, no meio da invasão russa da Ucrânia. —AFP/Arquivo “As pessoas nos imaginam como uma espécie de comando camuflado, mas na realidade andamos por aí de camisa e jeans”, disse Voron. Enquanto em público não se fala em missões e até palavras como “decolagem” ou “asa” são proibidas. Tudo é comprado em dinheiro – com o cuidado de misturar os caixas eletrônicos que utilizam para saques. Eles estão até proibidos de aderir a programas de fidelidade de postos de gasolina. Detectores de mentiras Os ataques ucranianos desencadearam uma crise de combustível em grande parte da Rússia, mas o seu impacto nas reservas de guerra de Moscovo é difícil de avaliar. Seja em missão ou não, os telefones da equipe de drones devem ser mantidos permanentemente em modo de voo e conectados apenas a um roteador portátil pessoal, disseram as três pessoas com quem a AFP conversou. Para comunicações militares, eles possuem telefones criptografados especiais e qualquer dispositivo com geolocalização é estritamente proibido. Detectores de mentiras são usados ​​se houver suspeita de vazamento de informações ou para testar novos recrutas. Um militar do 7º Batalhão da brigada “Madyar’s Birds” opera um drone de médio alcance a partir de uma sala de controle subterrânea em um local não revelado na Ucrânia, em 15 de maio de 2026, em meio à invasão russa da Ucrânia. —AFP/Arquivo À medida que a campanha da Ucrânia avança, a equipa enfrenta cada vez mais um constrangimento significativo: não a falta de drones, mas “horas por dia”, disse Denys. Ele espera um dia poder estar por trás de um lançamento que atinja o Kremlin e sonha com a “derrota total da Rússia”. Os ataques de longo alcance, disse ele, são como “gelo quebrando sob os pés dos russos”. “Estamos fazendo tudo o que podemos para que isso ceda abaixo deles.”