WASHINGTON (Reuters) - Os EUA e a mídia global reagiram na quinta-feira com uma mistura de alarme, ceticismo e cautela no mercado depois que o presidente Donald Trump intensificou as tensões ao ameaçar tomar a ilha de Kharg, o importante centro offshore de exportação de petróleo do Irã. Em Washington, o tema dominante nas reportagens é o fosso entre a retórica e a viabilidade militar. Jonathan Swan, correspondente do The New York Times na Casa Branca, enquadrou a postura da administração como definida por repetidas escaladas e clareza estratégica limitada. "Trump disse repetidamente que atacaria Kharg durante a guerra, à medida que intensificou as suas ameaças para tentar obrigar o Irão a concordar com as suas exigências de encerrar o seu programa nuclear. O Irão tem consistentemente chamado a atenção para o seu bluff", escreveu ele. A avaliação de Swan também destaca as restrições internas que moldam a discussão em Washington. “Trump tem poucas opções fáceis”, escreveu ele, apontando para os esgotados arsenais de armas de longo alcance e para a complexidade operacional de qualquer tentativa de tomar fisicamente a ilha. “Os EUA estão perigosamente com poucos stocks de armas de longo alcance, e a apreensão de Kharg envolveria um risco substancial de baixas americanas, e a maioria dos conselheiros de Trump opõem-se a uma operação terrestre completa para tentar derrubar o governo iraniano. “Mas ele continua a fazer ameaças belicosas e nos últimos dias lançou ondas de ataques militares”, observou Swan. Essa cautela é partilhada pelo The Washington Post, que enfatizou os custos logísticos e humanos de qualquer tentativa de ocupação da ilha. De acordo com o jornal, “na verdade, tomar e manter a ilha de Kharg acarreta um risco significativo de baixas americanas e requer o envio substancial de tropas dos EUA”, sublinhando que o cenário passaria rapidamente de ataques limitados para uma situação de guerra regional em grande escala. Um caça FA-18 dos EUA se prepara para decolar de um porta-aviões no Oriente Médio, nesta foto divulgada em 29 de maio de 2026. — X/@CENTCOM/File O principal correspondente estrangeiro da NBC News, Richard Engel, descreveu o ciclo crescente de greves e contra-ameaças como tendo já transformado o ritmo do conflito. “É seguro dizer que o cessar-fogo está efetivamente morto e foi agora substituído por negociações sob ataque”, disse ele, observando que Trump tem tentado pressionar Teerã a chegar a um acordo. Mas Engel acrescentou que o Irão “não dá nenhuma indicação de que queira trabalhar desta forma e insistiu que responderá sempre que for atacado”. As reportagens da CNN provenientes de Washington sugerem que Teerão não só antecipou tais ameaças, como também se preparou activamente para elas. A repórter Kaanita Iyer observou que “o Irã vem se preparando há meses para uma operação dos EUA para assumir o controle da Ilha Kharg, que o presidente Trump ameaçou atacar na quinta-feira”. De acordo com fontes citadas pela CNN, o Irão reforçou as defesas da ilha com “sistemas adicionais de mísseis terra-ar guiados, disparados pelo ombro, conhecidos como MANPADs (sistemas de defesa aérea portáteis)” e colocou “armadilhas na ilha com minas antipessoal e anti-blindagem… incluindo na costa onde as tropas dos EUA poderiam possivelmente desembarcar”. A CNN enfatizou ainda a importância estratégica de Kharg, descrevendo-o como “uma tábua de salvação económica para o Irão, que gere cerca de 90 por cento das exportações de petróleo bruto do país”, e ecoando avaliações militares alertando para “riscos significativos numa operação para tomar Kharg, incluindo um grande número de baixas dos EUA”. Entretanto, os mercados financeiros reagiram imediatamente à perspectiva de escalada. A BBC informou que os preços do petróleo subiram cerca de 2 dólares e os futuros do petróleo Brent aumentaram para 94,16 dólares por barril “no espaço de alguns minutos depois de Trump ter ameaçado novos ataques”. A BBC também registou os avisos dos analistas de defesa de que qualquer ataque seria operacionalmente complexo, exigindo que as forças dos EUA atravessassem distâncias significativas por mar ou ar, tornando uma operação de desembarque particularmente desafiante. No seu conjunto, a cobertura internacional pinta um quadro consistente: enquanto a retórica da Casa Branca se intensifica, os analistas militares e os repórteres de todos os meios de comunicação concordam que a ilha de Kharg não é um alvo simbólico, mas sim uma tábua de salvação económica fortemente defendida.