Psicóloga morre após 5 dias de espera por leito em MG; família contesta novo sistema de regulação
⚡ Resumo rápido
Rebeca Cardoso Tenente Molina, de Mar de Espanha, morreu após ser transferida para Oliveira, no Centro-Oeste de Minas Reprodução/ Rede Social A psicóloga Rebeca Cardoso Tenente Molina, de 32 anos, morreu após passar cerca de 5 dias à espera de uma transferência para um leito de unidade de terapia intensiva (UTI) em Minas Gerais.
Rebeca Cardoso Tenente Molina, de Mar de Espanha, morreu após ser transferida para Oliveira, no Centro-Oeste de Minas
Reprodução/ Rede Social
A psicóloga Rebeca Cardoso Tenente Molina, de 32 anos, morreu após passar cerca de 5 dias à espera de uma transferência para um leito de unidade de terapia intensiva (UTI) em Minas Gerais. O caso ocorreu após uma internação em São João Nepomuceno, na Zona da Mata, e transporte áereo para Oliveira, no Centro-Oeste de Minas, no sábado (7).
A demora até achar a vaga e a distância entre as duas cidades levaram a família, que é de Mar de Espanha, a questionar o funcionamento do novo sistema da Central de Operações para Regulação Estadual (Core/MG), substituindo o SUS Fácil. Entenda mais abaixo.
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Segundo a irmã gêmea de Rebeca, a advogada Sâmela Cardoso Tenente Furtado, a psicóloga procurou atendimento médico no dia 2 de junho devido a pedras na vesícula. O quadro de saúde se agravou rapidamente.
"Quando ela chegou lá, na consulta com o cirurgião, ela já foi reencaminhada para o hospital porque começou a não sentir mais os braços e as pernas. Então ela foi piorando até precisar ser entubada e começou a ter hemorragia", relatou a irmã.
Com a piora clínica, Rebeca passou a necessitar de uma transferência urgente para um leito de terapia intensiva. A família chegou a recorrer à Justiça para tentar agilizar a vaga.
Transferência para hospital a 300km
A vaga para UTI foi disponibilizada apenas no 6 de junho, em Oliveira, a cerca de 300km de São João Nepomuceno. De acordo com a família, uma força-tarefa foi organizada para transportar Rebeca em um avião particular até o município.
Ela chegou a ser transferida, mas morreu poucas horas depois. A causa do óbito ainda é investigada. Conforme a irmã, os familiares ainda aguardam esclarecimentos sobre o que provocou a rápida piora do quadro clínico.
Rebeca Cardoso Tenente Molina, de Mar de Espanha, morreu após ser transferida para Oliveira, no Centro-Oeste de Minas
Reprodução/rede social
No atestado de óbito consta choque séptico como causa da morte. Segundo Sâmela, médicos que atenderam Rebeca também cogitaram a possibilidade de botulismo e solicitaram novos exames.
🔎O botulismo é uma doença neuroparalítica grave, rara, não contagiosa, causada pela ação de uma potente toxina produzida pela bactéria Clostridium botulinum
Questionamentos sobre o Core-MG
Desde 19 de maio, Minas Gerais utiliza o Core-MG, novo sistema estadual de regulação de leitos, que está centralizado em Belo Horizonte. A plataforma utiliza tecnologia e inteligência artificial para auxiliar na classificação dos pacientes e na definição de prioridades para transferência.
A família de Rebeca afirma que a gravidade do caso não teria sido refletida adequadamente no sistema. Segundo Sâmela, a paciente recebeu uma pontuação considerada inferior à condição clínica observada pela equipe médica, o que teria impactado sua posição na fila de regulação.
“O que nós vimos foi que os médicos perderam a autonomia de falar se a paciente está muito grave. Quem tem que aceitar se o paciente está grave não é mais o médico que está ali vivenciando aquela realidade do paciente, é o Core. Por isso que a minha irmã estava num grau muito grave, estaria num 10, e o sistema só aceitou ela como um 6,8. Então ela não conseguia rodar no sistema direito porque um paciente 8, um paciente 6,9 passaria na frente dela. E o sistema não aceitava aumentar a gravidade dela ali dentro por conta dos exames que iam alimentando ele a todo tempo.”
Para Sâmela, o sistema precisa ser revisto. “Antes desse Core ser implementado, eu acredito que teve muita pesquisa, muita coisa. Mas ele de fato, às vezes funciona no papel. A minha irmã, outras pessoas, não são só números, não são só protocolos, não são só um CPF jogado no sistema. Tem família, tinha sonhos, tinha uma vida inteira pela frente.”
O que diz a Secretaria de Estado de Saúde
Em nota, a Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais (SES-MG) informou que Rebeca foi cadastrada imediatamente no sistema de regulação e que, diante da indisponibilidade de leitos em Juiz de Fora, a busca foi ampliada para outras regiões do estado, incluindo a rede suplementar.
A pasta afirmou que a escolha do hospital de destino não é definida exclusivamente pela proximidade geográfica, mas pela disponibilidade de leitos compatíveis com a necessidade clínica do paciente.
Segundo a secretaria, o atual sistema não alterou os critérios assistenciais nem a metodologia de busca por vagas. O governo estadual também informou que a regulação segue realizada por médicos reguladores responsáveis por avaliar cada caso e buscar o recurso assistencial mais adequado.
A SES-MG defendeu que o CORE-MG trouxe mais agilidade, eficiência e transparência ao processo de regulação e informou que mais de 200 médicos participam da análise dos casos.
No entanto, enquanto o estado sustenta que o novo modelo modernizou o sistema, a família de Rebeca cobra respostas e defende que a ferramenta seja revista.
"Ela não era só um número ou um protocolo dentro do sistema. Tinha uma família, tinha sonhos e uma vida inteira pela frente", disse Sâmela.
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